"A pé e de coração leve
eu enveredo pela estrada aberta,
saudável, livre, o mundo à minha frente,
à minha frente o longo atalho pardo
levando-me aonde eu queira.
Daqui em diante não peço mais boa-sorte,
boa-sorte sou eu.
Daqui em diante não lamento mais,
não transfiro, não careço de nada;
nada de queixas atrás das portas,
de bibliotecas, de tristonhas críticas;
forte e contente vou eu
pela estrada aberta.
A terra é quanto basta:
eu não quero as constelações mais perto
nem um pouquinho, sei que se acham muito bem
onde se acham, sei que são suficientes
para os que estão em relação com elas.
(Carrego ainda aqui
os meus antigos fardos de delícias,
carrego - mulheres e homens -
carregos-os comigo por onde eu vou,
confesso que é impossível para mim
ficar sem eles: deles estou recheado
e em troca eu os recheio.)"
Domingo, Dezembro 21, 2008
Canto da Estrada Aberta - Walt Whitman
Sábado, Maio 17, 2008
... retornos merecem comemorações ....
O Feiticeiro Se Regozija...
A primavera deixa cair seu manto como a bela Persefone levantou-se, levanto-me. Meu mundo inferior é a torre, o dela é a terra pedregosa. A celebração está próxima! Assim como o Senhor Sol nos abençoa com o degelo, pegarei minha parte de palha insípida (tão comprida na mudança!) e pisarei em grama recém-crescida. Secarei minhas vestes em galhos novos e caminharei até um corrégo límpido para banhar-me. O mordiscar da água é um alívio agudo para as dores do ar mofado. Cuspindo o que sobrar do inverno, beberei o néctar da primavera. Nu como uma criança, abraçarei os ventos e deixarei a Terra mortal. Com minhas mãos elevadas e estendidas como as de uma prestiditador, fecharei meus olhos e agarrarei o ar da montanha. E ela responderá, essa Deméter, amamentando-se em mim como uma criança antiga que retornou à luz do sol: e beijarei as nuvens quando elas passarem! Ao cair da noite, iremos nos juntar dos confins da terra. Como caranguejos fugidos de suas cascas, minha espécie deixará seus ninhos mortos e sombrios e dará as mãos ao redor das fogueiras de maio. Saltando as chamas (tão puras e cheias de vida!), iremos chamar o Verão de volta, então plantar nossas sementes e arar nossos sulcos e dançar como o Homem Verde. Assim foi: E assim será. A época da mudança está próxima, e estou pronto para o sol vindouro.
(Texto retirado de MAGO: A CRUZADA DOS FEITICEIROS)
Sexta-feira, Novembro 30, 2007
Quinta-feira, Novembro 29, 2007
Dialética
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
(Vinicius de Moraes)
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
(Vinicius de Moraes)
Domingo, Abril 29, 2007
Quarta-feira, Abril 18, 2007

"A vida é o dever,que nos trouxemos para fazer em casa. Quando se ve,já são seis horas! Quando se ve,já é sexta-feira.... Quando se ve,já é Natal..... Quando se ve,já terminou o ano..... Quando se ve,perdemos o amor da nossa vida.... Quando se ve,passaram-se 50 anos! Agora é tarde demais para ser reprovado..... Se me fosse dado,um dia,outra oportunidade,eu nem olhava o relogio..... Seguiria sempre em frente e iria jogando,pelo caminho,a casca dourada e inutil das horas..... Seguraria o amor,que está muito a minha frente,e diria que eu amo...... Dessa forma,eu digo:não deixe de fazer algo de que gosta devido a falta de tempo.Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.A unica falta que tera, sera a desse tempo que infelizmente.... Nunca mais voltará." Mário Quintana
Esse fim de tarde sem sol traz lágrimas aos meus olhos...
lagrimas
pó
lama
Sábado, Abril 07, 2007
De hoje...

"Depois que os últimos pingos da chuva começaram a tardar na queda dos telhados, e pelo centro pedrado da rua o azul do céu começou a espelhar-se lentamente, o som dos veículos tomou outro canto, mais alto e alegre, e ouviu-se o abrir de janelas contra o desesquecimento do sol. Então, pela rua estreita do fundo da esquina próxima, rompeu o convite alto do primeiro cauteleiro, e os pregos pregados nos caixotes da loja fronteira reverberaram pelo espaço claro.
Era um feriado incerto, legal e que se não mantinha. Havia sossego e trabalho conjuntos, e eu não tinha que fazer. Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir. Passeava de um lado ao outro do quarto e sonhava alto coisas sem nexo nem possibilidade - gestos que me esquecera de fazer, ambições impossíveis realizadas sem rumo, conversas firmes e contínuas que, se fossem, teriam sido. E neste devaneio sem grandeza nem calma, neste atardar sem esperança nem fim, gastavam meus passos a manhã livre e as minhas palavras altas, ditas baixo, soavam múltiplas no claustro do meu simples isolamento.
A minha figura humana, se a considerava com uma atenção externa, era do ridículo que tudo quanto é humano assume sempre que é íntimo. Vestira, sobre os trajes simples do sono abandonado, um sobretudo velho, que me serve para estas vigílias matutinas. Os meus chinelos velhos estavam rotos, principalmente o do pé esquerdo. E, com as mãos nos bolsos do casaco póstumo, eu fazia a avenida do meu quarto curto em passos largos e decididos, cumprindo com o devaneio inútil um sonho igual aos de toda a gente.
Ainda, pela frescura aberta da minha janela única, se ouviam cair dos telhados os pingos grossos da acumulação da chuva ida. Ainda, vagos, havia frescores de haver chovido. O céu, porém, era de um azul conquistador, e as nuvens que restavam da chuva derrotada ou cansada cediam, retirando para sobre os lados do Castelo, os caminhos legítimos do céu todo.
Era a ocasião de estar alegre. Mas pesava-me qualquer coisa, uma ânsia desconhecida, um desejo sem definição, nem até reles. Tardava-me, talvez, a sensação de estar vivo. E quando me debrucei da janela altíssima, sobre a rua para onde olhei sem vê-la, senti-me de repente um daqueles trapos húmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito que mancham lentamente."
Era um feriado incerto, legal e que se não mantinha. Havia sossego e trabalho conjuntos, e eu não tinha que fazer. Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir. Passeava de um lado ao outro do quarto e sonhava alto coisas sem nexo nem possibilidade - gestos que me esquecera de fazer, ambições impossíveis realizadas sem rumo, conversas firmes e contínuas que, se fossem, teriam sido. E neste devaneio sem grandeza nem calma, neste atardar sem esperança nem fim, gastavam meus passos a manhã livre e as minhas palavras altas, ditas baixo, soavam múltiplas no claustro do meu simples isolamento.
A minha figura humana, se a considerava com uma atenção externa, era do ridículo que tudo quanto é humano assume sempre que é íntimo. Vestira, sobre os trajes simples do sono abandonado, um sobretudo velho, que me serve para estas vigílias matutinas. Os meus chinelos velhos estavam rotos, principalmente o do pé esquerdo. E, com as mãos nos bolsos do casaco póstumo, eu fazia a avenida do meu quarto curto em passos largos e decididos, cumprindo com o devaneio inútil um sonho igual aos de toda a gente.
Ainda, pela frescura aberta da minha janela única, se ouviam cair dos telhados os pingos grossos da acumulação da chuva ida. Ainda, vagos, havia frescores de haver chovido. O céu, porém, era de um azul conquistador, e as nuvens que restavam da chuva derrotada ou cansada cediam, retirando para sobre os lados do Castelo, os caminhos legítimos do céu todo.
Era a ocasião de estar alegre. Mas pesava-me qualquer coisa, uma ânsia desconhecida, um desejo sem definição, nem até reles. Tardava-me, talvez, a sensação de estar vivo. E quando me debrucei da janela altíssima, sobre a rua para onde olhei sem vê-la, senti-me de repente um daqueles trapos húmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito que mancham lentamente."
Fernando Pessoa - Livro do Desassossego
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